quinta-feira, 21 de outubro de 2010


Eleita a Mulher do Ano de 1978 pela revista STATUS.
Apresentada com ternura e malícia por Vinícius de Morais
e fotografada por Marisa Alvares Lima
"Pouquíssimas pessoas eu conheço tão parecidas com a terra em que nasceram como Fafá de Belém.Vasta e pletórica como a região na qual veio ao mundo, ela é solta e torrencial como uma pororoca, capaz de romper os diques de qualquer um que encontrar pela frente, com sua natureza explosiva e jubilosa, natural e sem maldade.Quatro anos e pouco apenas separam o seu primeiro show no Rio, uma desconhecida total, do seu reconhecimento como "A Mulher do Ano de Status".
Seu encontro com Sérgio Ricardo em Belém, em 1974, deu-lhe o impulso inicial nessa escalada para a fama, que ela garimpou de cinco em cinco degraus, sem chatear ninguem mas tambem sem deixar que a chateassem por demais.Porque chateações sempre há.O brasileiro é inimigo do sucesso alheio, sentindo-se pessoalmente ofendido sempre que dele não participou ou não "descobriu".
Eu a conheci pessoalmente nesse mesmo ano, ainda ninguem como cantora mas já a Fafá expansiva e moleca que passara a infancia jogando gude ou pelada com a turma, trepando em arvores ou soltando pipas pelas ruas de Belém.
A Fafá de muitas fofuras e fraturas, com mania de mexer no pequeno laboratório escolar do irmão, e cuja curiosidade "científica" a levava a enfiar galinhas no congelador da geladeira só pra ver que bicho dava.Fafá fartura, como tão bem disse dela seu amigo Caetano Veloso.Eu estava inaugurando minha casa da Bahia, ali em Itapuã, quando Fafá apareceu.Era uma festa a portas abertas, onde havia duzentos convidados e trezentos penetras.Um dos grandes porres que já conheceu a cidade de Salvador.Nessa noite, sinceramente, não sei como ela conseguiu fazer seu show com Sérgio Ricardo, no Teatro Castro Alves, onde a vi atuar pela primeira vez.E senti a tremenda profissional que é, incapaz de fugir às suas responsabilidades para com o público só porque pintou um porrinho à tarde.
Fafá fartura, Fafá fofura, ela é como ela é.Linda.Moleca.Amiga.Excelente profissional.Cantando com essa voz explendida que parece uma mordida na polpa carnuda de uma manga-espada, saborosa como um pato ao tucupi, plena e pungente como açaí, o vinho grosso e rubro que, se não embriaga, dá pelo menos um tremendo barato.Um barato de alma, porque é a gleba natal em forma de suco.E podem acrescentar aí muito caranguejo, muito bacuri, muito doce de cupuaçu ou de tapioca, muito bolo de macaxeira, muito uximari, taperebá, mangaba, graviola - tudo cortado por uma cachaça do Abaeté - não o baiano - mas o da ilha de Abaetuba.
Isto é Fafá fartura, Fafá fofura, Fafá gostosura - Fafá de Belém.
A menina moleca, doce e sensual, bem condimentada e perfumada, cheirando a ervas e madeiras aromáticas, que não precisa de Chanel ou de Patou para nada, porque cheira às folhas e aos frutos de sua terra boa e materna.
Fafá de Belém - e dá vontade de ficar tangendo... belém... belém... belém... porque é o som de um sino de ouro chamando para a missa pagã, onde a hóstia é de tapioca e o vinho é de açaí.
Fafá de Belém que toma banho-de-cheiro e chupa manga com farinha, e só se perfuma com essência feita de mato, e saiu de casa aos dezoito anos, e usa decote sem mentira, aberto como a embocadura do Amazonas.
Fafá que não conhece preconceitos, caudalosa e antropofágica, que ame gente e é por gente amada, que tem o sangue de Eneida de Moraes nas veias, e é pura, leal e autêntica sempre que as pessoas o sejam também com ela.Sim, porque Fafá de Belém de otária e careta não tem nada.
Do que ela gosta mesmo é de uma coisa ultra-simples, mas que resulta também na coisa mais difícil e complicada que há no mundo : de viver, roendo os ossos da vida até o ultimo farelo.Viver com muito júbilo, muito amor, muita alegria.
Fafá de Belém : "A Mulher do Ano de 1978".
Para mim, a mulher de todos os anos do calendário gregoriano."
Vinícius de Moraes











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